quarta-feira, 9 de março de 2011

Sem fim

Quando eles se conheceram ela não sabia que seria assim. Ele não sabia que seriam assim. Só se sabe que não fez sentido.
Ele estava no bar, ela na festa de uma desconhecida que uma prima lhe convidou a ir. Ambos sairam. Ele pegou um táxi, quarteirões à frente ela entrou no mesmo. Não se olharam. Ele ainda bebia uma garrafa de vodka barata. Ela olhava janela a fora. Educado que era ele, lhe ofereceu um gole na espera de ela não aceitar, mas ela aceitou. Disse que aceitara porque não estava num bom momento, ele perguntou o por quê, conversaram então. Trocaram telefones. Ele ligou, perguntou se ela agora estava num bom momento. Ela riu. Sairam. Não foi uma noite elegante e inesquecível, foi apenas inesquecível; beberam, conversaram, riram, choraram. Ela lhe contou do grande amor que nunca teve, ele lhe contou da solidão que lhe preenchia. E assim a noite se foi.
Outra semana, outros encontros. Numa certa madrugada ele foi dormir, não conseguiu, estava pensando nela, naquele seu sorriso que iluminava mais que toda uma constelação, pensou em como ela lhe fazia bem, em como ela disfarçava bem um mal entendido, em como ela era linda. Ruas à frente ela dormia, como uma criança após todo um dia no parque. Ele queria ligar, mas não o fez.
Os dias passaram e com eles encontros, madrugadas sem dormir direito, sorrisos, constelações... Até que no meio de uma de suas solidões profundas ele percebeu que já não queria mais viver sem ela, que a ela lhe pertencia o dom de acabar com sua solidão, ele que estivera tanto tempo naufragado em tal.
Resolveu então lhe contar o que sentia. Ela ouviu, chorou, pensou, lhe olhou nos olhos e tudo o que fez foi levantar-se e ir embora, saiu do bar sem nenhuma vez olhar para trás, deixando ali o grande amor que nunca tivera mas que agora poderia ter, mas resolveu ir, até hoje não se sabe por quê. Só sei que foi assim. E como disse, não fez
sentido, mas o amor nunca faz. Apenas à ela pertenciam os motivos de partir.

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